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Ideologia, eu quero uma pra viver

politica

publicado: 29/11/2018 09h19 última modificação: 29/11/2018 09h19

IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PRA VIVER

Luiz Henrique S. Moreira[1]

 

"Meu partido, é um coração partido" dizia Cazuza (1958–1990) em seu terceiro álbum, Ideologia lançado em 1988, onde ao prenunciar uma abstenção da política institucional de certa forma prenunciava também o caminho o qual a sociedade brasileira pretendia trilhar e hoje, 30 anos após o lançamento de um dos álbuns que marcou a história do rock brasileiro, a letra da música tema do disco parece fazer mais sentido do que nunca. Não se trata apenas do resultado das últimas eleições presidenciais onde a democracia liberal e o sistema político brasileiro se mostraram ineficientes, não se trata apenas de falar de partido X ou Y, se trata de admitir que um sistema político no qual abstenções, brancos e nulos somam 30%, é um sistema falho e desacreditado por aqueles que deveriam exercer maior poder dentro deste sistema, isso é fato!

Quando analisamos a história do pensamento político moderno, percebemos que por vezes o termo “ideologia” acaba assumindo um sentido pejorativo no qual é tomado por algo alienante que prejudica a percepção da realidade concreta, sentido esse que começa a se delinear com Napoleão Bonaparte (1769-1821), mas acaba sendo teorizado desta forma por Karl Marx[2] (1818-1883), de modo que ironicamente é o sentido o qual a direita "delirante" brasileira comumente faz uso do termo, vide a degradação dos estudos de gênero através do termo “ideologia de gênero” criado pela parte religiosa deste movimento político. Se torna necessário apontar que é a partir da teorização do conceito de ideologia no século XIX que se passa a definir correntes de pensamentos políticos que gestam sobre os direitos individuais e coletivos, como o liberalismo, o anarquismo, o Socialismo, o libertarianismo, o igualitarismo e o próprio marxismo.

Entretanto, devemos admitir que há um consenso de que nenhuma sociedade é desprovida de crenças e valores que dão luz às múltiplas ideologias, que podem variar de acordo com a classe social, a etnia e o grupo profissional ao qual os indivíduos pertencem. De modo que não se trata mais do "Brasil que eu quero para o futuro", mas qual a ideologia que eu quero para hoje, para construir o Brasil do amanhã.

A partir dessas colocações se torna impossível afirmar que vivemos em uma sociedade sem ideologia, mas talvez seja evidente que nossas ideologias nunca foram tão escassas de reflexões aprofundadas. Quando o historiador brasileiro Leandro Karnal[3] ao falar do projeto "Escola Sem Partido", afirma se tratar de uma crença "fantasiosa de uma direita delirante" que por não entender o que é ideologia, ou não conseguir teorizar minimamente sobre a mesma, essa mesma direita acaba propondo um projeto totalmente ideológico e político que visa acabar com a ideologia e a política em sala de aula, acredito que não precisamos nos ater ao tema para mostrar o quão incoerente isso acaba sendo.

Não se trata de uma generalização à respeito daqueles que assumem o posicionamento político de direita no Brasil, visto que muitos destes já assumem que o problema da educação brasileira não é a ideologia partidária, mas se trata de uma crítica à parte dessa direita política que delira por falta de aprofundamento ideológico, e não consegue perceber os reais problemas da realidade. Sendo assim, a grande questão da ideologia não é a possibilidade de viver sem a mesma, isso é impossível até que se prove o contrário, o ponto é o aprofundamento e a seriedade que se dá a mesma. Precisa-se de ideologias que ajudem a compreender a concretude da realidade, para que a grande massa populacional consiga se aprofundar também em problemas políticos, percebendo assim que o problema da educação não é seu viés ideológico, mas que a educação em si não veem ocorrendo no mundo, de modo que os jovens deixam as escolas despreparados para enfrentar o mercado de trabalho e a vida, fadados aos grandes males do século XXI, o desemprego e a depressão. Os sonhos vendidos e a conta do analista deixaram de ser metáfora faz tempo.

Após as recentes, e não tão recentes, revoluções tecnológicas onde as distâncias do globo se encurtaram, nós pretensiosamente nos denominamos como sociedade da informação. Mas será que ninguém nunca se perguntou por que sociedade da informação e não do conhecimento? Seria por que dada a impossibilidade de aprofundamento nas múltiplas informações que inundam nosso cotidiano nos tornamos incapazes de transformar informação em conhecimento? 

Precisamos mais do que nunca de uma ideologia pra viver. Precisamos de ideais que façam sentido no cotidiano, precisamos de ideologias (no plural) para salvar vidas, para que nossos jovens parem de assistir as coisas em cima do muro virtual, enquanto esperam o fim de semana para frequentar suas festas do "Grand Monde", e se sintam novamente desafiados à mudar o mundo.  

Agenor de Miranda Araújo Neto, ou melhor, Cazuza nos deixou há 28 anos, e nossos heróis continuam morrendo de overdose, e por causa da HIV. E nossas heroínas não só pela heroína, mas em clínicas clandestinas de aborto e relacionamentos abusivos. E independente de posicionamento político, qualquer ser humano racional tem que admitir que isso é um fato e algo precisa ser feito para mudá-lo, negar a necessidade dos estudos de gênero diante disso acaba sendo desumano. Longe da pretensão da esquerda que se acha revestida pelo véu da bondade e com a missão de salvar a humanidade, talvez humanidade seja um termo abstrato demais e devamos falar em seres humanos, pois estes ao contrário da “humanidade” encontramos em cada esquina e estes sim estão mais palpáveis de serem salvos.

A questão que fica é que enquanto nos abstermos do debate e da ideologia, tratando o "poder" como nosso grande inimigo, nossos inimigos continuarão no poder.

 

“Ideologia” - Cazuza

 https://www.youtube.com/watch?v=UioudOtAsCQ 



[1] Graduando do curso de História da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), campus de União da Vitória.

[2] Tendo em mente toda a obra de Marx, e que por vezes o conceito de ideologia diverge em sua própria obra, assumimos aqui o posicionamento crítico tomado pelo mesmo e por seu companheiro Friederich Engels na obra A Ideologia Alemã (1932). Cf: ENGELS, Friderich; MARX, Karl. A IDEOLOGIA ALEMÃ: Feuerbach – A Contraposição entre as Cosmovisões Materialista e Idealista. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda., 2005.

[3] A fala foi feita em uma entrevista ao programa Roda Viva no dia 04/07/2016. Disponível no canal oficial do programa em: https://www.youtube.com/watch?v=JmMDX42jOoE (o trecho citado ocorre aos 46 minutos de vídeo)